BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Persian, English, Sexo, Dinheiro


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Caixa Preta


Do fundo da caixa preta: Gumbo Millenium

24-7 SPYZ
“Gumbo Millenium”
(In-Effect Records, 1990)



Contemporâneo do Living Colour e saído do Bronx, o 24-7 Spyz surgiu na cena musical em 1989 com “Harder Than You”. O álbum apresentava uma mistura improvável de funk, metal e reggae, sendo que o peso das guitarras e a postura ‘tough guy’ se sobressaíam a todo o resto.

Um ano depois, o quarteto formado por P. Fluid (voz), Jimi Hazel (guitarra), Rick Skatore (baixo) e Anthony Johnson (bateria) lançou seu segundo disco. “Gumbo Millenium” era uma versão mais colorida de “Harder Than You”, onde os músicos deixaram o funk comer solto e, como de praxe, pontuaram as canções com riffs de metal e hardcore. Os Spyz adequadamente trocaram as jaquetas de couro e a cara amarrada por bermudas, camisetas floridas e astral irreverente. Eram os anos 90 que começavam e a atmosfera parecia saudável e propícia para deixar o azedume de lado e ir fundo na mistura de gêneros musicais a princípio incompatíveis.

Os músicos negros, aliás, têm todo o crédito por esse desapego a rótulos que veio a criar o ambiente para o surgimento de bandas que misturam qualquer estilo sem reprovação. Já no ínicio dos 80’s, o Bad Brains tocava um repertório basicamente hardcore com um habitual tema de reggae ‘emaconhado’ aqui e acolá. O mesmo acontecia com o Fishbone, combo de funk-soul que, em meados da mesma década, produzia música que só poderia ser definida como uma salada sonora. Talvez por isso, ouvir um álbum como “Gumbo Millenium” em 2005 tenha sabor nostálgico e um tanto agridoce. Não obstante a mistura ter dado caldo, essa aspiração de botar suíngue no rock pesado ou enfiar guitarras distorcidas no meio de um funk acabaram indo por água abaixo com o passar dos anos.

“Gumbo Millenium”, por conta de tanta mistura, soa hoje um pouco estranho, embora à época parecesse obra visionária. Da instrumental que abre o álbum, “John Connely’s Theory” -- título homenageava o líder da banda de thrash metal Nuclear Assault -- à terceira faixa, “Deathstyle”, o 24-7 Spyz parece estar com a cabeça no metal, porém, na magnífica “Dude U Knew” tudo vira do avesso. É suingueira de quebrar a cintura dos mais desavisados, com P. Fluid menos extravagante nos ‘falsettes’ e uma fluência musical que, rumo ao fim da canção, transforma-se numa suculenta e descarada ‘jam’.

A vinheta “Culo Posse”, de 1 minuto e meio, antecipa a ‘rapeada’ “Don’t Push Me”, e é outra com slap bass, riffs de guitarra intrincados e bateria gravada com o volume lá em cima. Mais uma vinheta pirada serve de intervalo, “Spyz on Piano”, e a banda volta com “Valdez 27 Million?”, canção que abre com uma base instrumental que parece herdada de mestres do funk como Kool & the Gang ou Chic. A seguinte é o hit do disco. Ou melhor, um ‘quase-hit’. “Don’t Break My Heart” teve video-clipe com execução modesta na MTV americana, mas suficiente para catapultar a banda a um novo estágio de popularidade, que levou os Spyz a assinarem contrato com a East-West Records, braço da ‘major’ BMG.

“Gumbo Millenium” reserva ainda outras pérolas: a engajada “We’ll Have Power” com sua levada reggae/ska, o hardcore “Racism” com refrão maluco próprio dos Spyz e “Heaven and Hell”, que soa como uma balada black pontuada por riffs de death metal (!!). O disco termina com a ingênua “We Got a Date” e a climática “Some Defenders’ Memories” – gravada com 3 canais de voz e uma célula rítmica de contrabaixo que se repete até o final.

Os Spyz continuaram na estrada após “Gumbo”, mas o line-up original desmoronou logo em seguida. P. Fluid e Anthony Johnson abandonaram o barco (ou foram chutados) e, sem eles, a banda gravou o elogiado “Strength in Numbers”, disco mais sério, com produção top, arranjos sofisticados e pretensão de emplacar meia-dúzia de hits nas FMs. O sucesso comercial não chegou e, a partir daí, os remanescentes Jimi Hazel e Rick Skatore não pararam de quebrar a cabeça para estabilizar a banda com uma única formação.

Após o amargo insucesso numa grande gravadora, o 24-7 Spyz voltou para o underground com uma perspectiva mais modesta. Reuniram a formação original para o obscuro "Temporarily Disconnected" -- que saiu apenas na Europa e que o guitarrista Jimi Hazel considera um atraso na discografia do grupo. O mundo passou a prestar menos atenção nos Spyz e, com efeito, a impressão é que o tempo deles já passou. A banda é hoje um trio que toca para pequenas platéias que cultuam as virtudes guitarrísticas de Jimi Hazel. A irreverência e a energia da juventude ficaram guardadas em discos como “Gumbo Millenium”, registros de uma época que não volta mais.




 Escrito por Mr Eddy às 21h52
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Americanos ricos e entediados

Some Kind of Monster
(Idem/2004)
Direção: Joe Berlinger & Bruce Sinofsky
Com: James Hetfield, Kirk Hammett, Lars Ulrich, Bob Rock, Phil Towle, Dave Mustaine, Jason Newsted, Robert Trujillo, etc



O documentário "Some Kind of Monster", que enfoca a concepção do último álbum do Metallica, discorre sobre diversos temas tendo como pano de fundo o circo do rock'n'roll. Tal qual a autobiografia de Gene Simmons -- fundador do bilionário KISS --, o filme apresenta várias possibilidades de leitura: uma parábola do sonho americano, uma aula de como se dar bem no show business ou um exemplo do que a fama e o poder são capazes de fazer.

Imagine uma banda de rock que contrata um psicólogo para realizar sessões de terapia em grupo porque não consegue chegar a um acordo sobre coisa alguma. A situação é tão crítica que decidir o título de uma música pode levar os músicos a um embate de egos ou uma disputa pelo poder.
Além do terapeuta pago para apaziguar os ânimos (Phil Towle), existe ainda um produtor com superpoderes (Bob Rock) e mais um número razoável de pessoas interferindo no projeto. Do empresário ao executivo da gravadora. O Metallica, mais do que uma banda, é retratado como um negócio milionário que se sobrepõe a gostos, diferenças e problemas pessoais. Os americanos sabem o que é preciso, e não medem esforços para fazer a máquina funcionar. Criar uma obra de valor artístico sob tais circustâncias é um dos temas abraçados por Joe Berlinger e Bruce Sinofsky desde o início.

"Some Kind of Monster" não teve uma temporada nos cinemas brasileiros e saiu direto para o mercado de vídeo. A versão em DVD, pelo menos, é bastante generosa. São dois discos: o primeiro contém o filme e o segundo, horas de material extra. Entre os vários momentos não aproveitados no corte final, há uma conversa em que o empresário da banda, Cliff Burnstein, aponta com autoridade para uma das dificuldades do Metallica em parir novo álbum. O 'manager' de barbas brancas à la Jerry Garcia fala sobre como o sucesso pode ser um veneno. No caso específico do Metallica, parece tarefa complicada fazer com que seus integrantes se levantem da cama numa manhã de segunda-feira com disposição para ir ao estúdio trabalhar numa canção. A falta de motivação é uma praga que, aparentemente, contamina a maior parte dos artistas ricos e famosos, que preferem os pijamas e chinelos de dedo à pressão por resultados.

Com todo esse cenário, o Metallica parece-se menos com uma banda de rock e mais com uma empresa durante boa parte de "Some Kind of Monster". A presença permanente do terapeuta apenas reforça essa sensação. Sua eficiência é louvada por todos os participantes do filme, incluindo os diretores, mas causa certo mal-estar em seqüências em que a opinião do sujeito parece saída de algum manual barato de auto-ajuda. Mas não se pode culpar Phil de não apontar o dedo para algumas feridas. Ele coloca os músicos na posição de meros mortais que precisam parar de resmungar e agir como adultos. Uma boa lição para rock stars mimados.
O produtor Bob Rock também distribui puxões de orelha nas diversas horas de gravação de "St Anger" capturadas para o filme. Bob, é bom lembrar, reinventou o Metallica no multiplatinado 'álbum preto' e é responsável direto por ter transformado a banda num fenômeno de vendas que faz sombra para qualquer grupo de rock que sobreviveu ou nasceu nos anos 90. Segundo alguns, incluindo este escriba, Bob Rock também é responsável por ter pasteurizado a música do Metallica além de qualquer nível minimamente aceitável.

Filme tem ápice dramático com o afastamento de Hetfield, que interna-se espontaneamente numa clínica para dependentes de álcool. O cantor e guitarrista fica longe da banda por cerca de 6 meses. Ulrich, Hammett e todos os envolvidos temem pelo fim do Metallica, que já andava capengando com todos os conflitos internos e a iminente aposentaria por fortuna adquirida. Nesse intervalo, Berlinger e Sinofksy parece que fabricam algum material e o resultado é que a imagem de Lars Ulrich – já arranhada por sua batalha tola e antipática com Shawn Fanning, o inventor do Napster -- continua parecendo a de um ególatra que toca bateria nas horas vagas.
Numa tentativa de lavar alguma velha roupa suja em público, ele primeiro vai a um show do Echobrain, banda de Jason Newsted, ex-baixista do Metallica. Ulrich demonstra incômodo com o sucesso, mesmo que modesto, da empreitada ("Pensei que eles fossem tocar para uns 20 bêbados"). Mais tarde, resmunga para Bob Rock em tom de melodrama que, enquanto Hetfield está internado, Newsted toca por aí com o Echobrain.

Momento mais revelador é o comentado encontro de Lars com Dave Mustaine, guitarrista original do grupo, demitido em 1982. Mustaine é muito lembrado por sua participação nos primórdios do Metallica, mas é igualmente famoso por ser o líder e fundador da popular banda Megadeth. Para quem vê de fora, o sujeito é um exemplo de volta por cima. O próprio Ulrich se surpreende ao descobrir que Mustaine não pensa bem assim.
Dave não consegue superar a idéia que sua ex-banda transformou-se numa instituição do rock e que ele está de fora. Normalmente desbocado, Mustaine larga a máscara e mantém a serenidade em seu encontro com Lars. O baterista chega à beira das lágrimas, mas, no fim, tudo se resume a ego e aceitação. Lars não deseja sucesso a Jason Newsted e se empenha para ser o líder do Metallica. Mustaine, da mesma forma, prefere se apegar a ressentimentos com 20 anos de idade a aceitar o sucesso do Megadeth.

Com um câmera e um boom mike apontados para eles o tempo todo, é de se perguntar quanto de verdade os integrantes do Metallica revelam em "Some Kind of Monster". Considerando o tipo de situação a que eles se expõem, as presenças de Berlinger e Sinofsky acabaram sendo integradas ao dia-a-dia da banda, assim como as de Bob Rock ou doutor Phil. "Eles passaram a fazer parte da mobília", afirmou James Hetfield. Mesmo assim, a continuidade das filmagens chegou a ser questionada pelo próprio vocalista, incomodado com a situação em seu retorno da reabilitação. Os extras do DVD revelam que os diretores apresentaram à banda 20 minutos do documentário editado para convencê-los que o projeto merecia ser concluído. O termo "soro da verdade" também é usado por algum membro do Metallica para definir a presença das câmeras. Ou seja, pelo menos em teoria, ninguém ali conseguiria sustentar uma imagem mentirosa durante um ano e meio ou 1.600 horas de material gravado. Nesse sentido, "Some Kind of Monster" tem pouco em comum com um reality show como "The Osbournes".

Em meio a enorme fogueira de vaidades, a figura do guitarrista Kirk Hammett parece sair ilesa. Na linguagem dos escritórios, Hammett seria seguramente descrito como um "vaselina" -- aquele sujeito que não emite opiniões e sempre escapa de uma discussão ficando estrategicamente em cima do muro. Mas Kirk parece um pouco mais esperto do que a descrição leva a crer. Ofuscado pelos egos gigantes de Hetfield e Ulrich, o guitarrista trabalha para a banda. Quando seus colegas engatam alguma discussão tola sobre a capacidade musical de um ou outro (sim, tem disso no filme), é Hammett quem interrompe a ladainha e sugere que eles voltem ao trabalho.

Embora pareça o retrato de uma banda se desfigurando, "Some Kind of Monster" funciona como veículo de promoção. O fã mais ardoroso pode ver o filme como o registro de uma vitória de pessoas que superam obstáculos, etc e tal. Presença dos músicos nas campanhas de lançamento de filme e disco reforçam essa imagem. Todos os dedos em riste, egos inflados e o status de pais de família ricos e entediados desaparecem na hora dos flashes. É a arte da desfaçatez tão cara ao show business.



 Escrito por Mr Eddy às 01h29
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